16.9.09

os cadernos de malte laurids brigge

"Esse excelente Hotel é muito antigo. Já nos tempos do Rei Clodovico se morria nele em algumas camas. Hoje, morre-se em quinhentos e cinqüent e nove leitos. Produção em série, naturalmente. E numa produção dessas não se executa tão bem a morte individual, mas também isso é coisa que pouco importa. O que interessa é a quantidade. Quem, hoje, dá valor a uma morte bem executada? Até os ricos, que poderiam dar-se o luxo de morrer bem, começam a se mostrar relaxados, indiferentes; faz-se cada vez mais raro o desejo de ter uma morte particular. Mais um pouco, e será tão raro quanto ter uma vida particular. Meu Deus: tudo isso está aí. A gente chega, encontra a vida pronta, basta vesti-la. Depois se quer partir, ou se é obrigado a isso: Voilà votre mort, monsieur. E morre-se como o acaso determinar; morre-se a morte que faz parte da doença (pois, desde que conhecemos todas as enfermidades, também sabemos que os diferentes fins pertencem às doenças, não às pessoas; e o doente, na verdade, nada tem a dizer).
Nos sanatórios, onde se morre tão voluntariamente, com tanta gratidão para com médicos e enfermeiras, morre-se uma das motes oferecidas pela instituição; coisa que é muito bem vista. Mas, morrendo em casa, é natural que se escolha a morte daqueles círculos mais selecionados, que inicia com um enterro de primeira classe, e toda a sequência de magníficos rituais. Os pobres postam-se diante dessas casas, saciando-se de tanto olhar. Naturalmente a morte deles será banal, sem maiores complicações. Dão-se por felizes quando encontram alguma morte que lhes sirva mais ou menos. Pode até ser mais larga: pois sempre se cresce um pouco. Só ficamos aflitos quando ela não se fecha sobre o peito, ou quando nos estrangula."

Rainer Maria Rilke

2 comentários:

  1. Finalmente li. Muito legal, mas tenho a impressão de que entenderia mais tendo todo o contexto.

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